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terça-feira, 12 de abril de 2011

Untitled...

A garrafa tinha um formato engraçado e uma cor esverdeada. Havia restos no fundo e algumas gotas espalhadas pela superfície do que antes fora um Cheval Blanc completo. O vestido em tom amarelo claro, constratava de modo singelo com a areia pálida que fundia com os panos a cada passo. Não me recordo a hora e muito menos como parei alí. Com um gesto atrapalhado, larguei a garrafa e suspirei tão profundamente, que por um instante pensei ter descarregado um mundo inteiro de angústias num só ato. Deslizei as mãos pelos cabelos como toda mulher faz; áquela mania boba de alisar os fios e bagunçá-los na pretensão de que isso fosse adiantar alguma coisa ou que um gesto doce mudaria o mundo. Logo alí, dentro da bolsa, havia tantas coisas: batom, lenços, uma caneta, papéis, absorvente, um espelho e um pó. Tudo na mais completa desordem, como uma verdadeira bolsa deve ser, bagunçada e útill. Eu estava alí sentada enquanto a brisa balançava meus cabelos; e brincando com meu corpo, num arrepio gostoso, gentilmente peguei a caneta e um pedaço de papel: larguei a bolsa de modo descuidado, esparramando a maior parte dos pertences pela vasta imensidão de areia... "A pouco vaguei pela praia a procura de algo que eu nem mesma sei. São tantas perguntas e tão poucas respostas, são tantos sonhos e tão poucas realizações... O calor tem tomado conta da maior parte do tempo. As vezes têm surgido nuvens de formas engraçadas, como as de agora, acima de minha cabeça. Ventos ao sul as dissipam aos poucos, arrastando sutilmente os emaranhados de algodão. Sei que não lhe interessa o tempo e nem o momento, talvez eu esteja ensaiando pra dizer-lhe palavras bonitas ou algo que o encante de certa forma. Nao sinto mais orgulho bobo e nem resguardo palavras. Tenho sido direta, transparente. Cansei de guardar conceitos, sonhos, argumentos. Se amo, digo. Não sei porque dar voltas e voltas pra demonstrar o que pode ser resumido. Infeliz aquele que guarda o que sente e se afoga num universo de amarguras: tão imensamente desnecessário. Amor, paixão. Fica a seu critério, defina como quiser. Sinto falta de mensagens no meio da noite, de afagos, beijos doces, de um "Eu te amo" aos sussurros. Não necesseriamente da frase pronta, dita de forma bruta; há tantas formas de sentir-se amado. E assim as coisas vão vagando: um ombro amigo daqui e doses alcóolicas dalí... No momento a praia tem ganhado movimento: pessoas se aproximam e me olham pensativas: não nem se pela roupa chamativa de festa, ou se pelo estado catastrófico de minha aparência amargurada. Por curiosidade, sempre me pego distraída na maior parte do tempo. Ando com um costume maluco de tentar decifrar os pensamentos de todos á minha volta. Anseio por suas histórias, sobre o que vivenciaram... Sempre imaginei que por mais desgostosa que eu tenha sido de alguém, sempre me intrigou o fato de que até os julgados 'insensíveis' têm algo a dizer sobre amor. Porque todos têm algo a dizer sobre amor. Uns de forma mais intensa, outros de forma menos ampla. É relativo o fato de que todos têm de vivenciar a perda de um, ou a decepção de outro. Por hora, aprendizado é um jeito ameno de dizer que se foi chutado e até mesmo que se custaram anos pra se libertar de uma saudade que por muitas vezes nao merecia ser sentida. E são dentre essas e outras razões, é que sinto certa urgência em ser feliz." Cuidadosamente, dobrei o bilhete e coloquei-o dentro da garrafa. Relutante, porém decidida, levantei-me cuidadosamente e caminhei em direção ao mar. Pude sentir cada gota cobrir meus pés e por fim, a água tomar meu corpo até a cintura. Num movimento brusco, ergui o braço direito e lancei a o vidro verde sem direção: como se estivesse lançando um sonho, na esperança de que a pessoa certa o pegasse. (Raphaela Sacchi)

2 comentários:

  1. oi, raphinha, saudade de você e de lê-la... beijos

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